Senhor Presidente da Assembleia Municipal,
Senhor Presidente da Câmara Municipal,
Senhoras Vereadoras,
Senhores Vereadores,
Senhoras e Senhores Deputados Municipais,
Senhores Presidentes das Freguesias,
Caros munícipes,
as minhas saudações.
Escutei há dias, num café, uma mulher a dizer a outra, com desprezo, que o dia 25 de Abril é um dia igual aos outros, que por isso nem deveria ser feriado, e que – cito –, “afinal o que nos deu o 25 de Abril”? Esta mulher teria, provavelmente, trinta anos de idade no ano de 1974.
Numa mesa ao lado, escutei de seguida um homem jovem, presumivelmente com trinta anos de idade, a responder à mulher que o 25 de Abril não tem para ele qualquer significado, que o único que sabe é que “os políticos” são todos iguais, e que o que lhe interessa é viver a sua vida. Falou, portanto, do 25 de Abril, com indiferença.
Que país é este? O que nos aconteceu enquanto povo? Como é possível que uma história tão bela e tão heroica como a Revolução dos Cravos se tenha transformado numa data desprezada por alguns e indiferente para outros?
Não devemos cair na ideia simplista, na frase feita, de que a culpa por que esta situação ocorre é de todos nós. Sem querer afastar qualquer autocrítica, a começar pelo extremo individualismo que tem caracterizado os seres humanos durante décadas – fruto da sociedade capitalista em que vivemos – , a verdade é que a culpa tem nomes e tem rostos.
Derrubou-se o fascismo, é certo, esse crime contra a humanidade, pois significou e significa a miséria, o obscurantismo e a repressão. E a guerra.
Que alguém relembre ou revele aos jovens de Portugal que este país esteve em guerra, que o regime fascista enviava para África os seus jovens, da idade, por exemplo, daquele que vos falei há pouco, para matar outros jovens que combatiam pela libertação do seu país, que tantos e tantos regressaram mutilados, ou vieram em caixas de pinho!
Que alguém relembre ou revele aos jovens de Portugal que havia uma polícia política, a PIDE, uma instituição delinquente de um Estado criminoso, que vigiava, perseguia, prendia, torturava e assassinava todos quantos ousassem não ser a favor do regime!
Que alguém relembre ou revele aos jovens de Portugal que, se não fossem ricos ou filhos de “boas famílias”, estavam condenados a uma vida de trabalho servil e de miséria, e também a uma vida de total obscurantismo cultural!
Que alguém relembre ou revele aos jovens de Portugal que o fascismo existiu neste país, e que foi derrubado pelos militares do MFA no grandioso dia 25 de Abril de 1974!
O fascismo foi derrubado, é certo. A liberdade foi recuperada. A guerra acabou. A democracia política foi introduzida. O povo cresceu em consciência, o povo sorriu, e o sonho de um país novo, de um país justo, pareceu possível de realizar-se.
Mas vieram os golpes contrarrevolucionários, com nomes e com rostos. As acções militares contra o sonho de Abril.
E vieram outros golpes, golpes revanchistas, perpetrados por governos que, aos poucos, foram atacando várias das conquistas da nossa Revolução. Governos com nomes e com rostos.
E outros golpes se sucederam e sucedem, não apenas contra as conquistas do 25 de Abril, mas contra o próprio país. Ou acaso não fomos governados por entidades estrangeiras e sem qualquer legitimidade democrática? Entidades com nomes e com rostos.
Derrubou-se o fascismo, é certo.
Mas, passados quarenta e um anos, voltaram realidades como o trabalho sem direitos, a emigração forçada, a pobreza, a fome. Voltaram o desespero e a angústia de homens e de mulheres que não sabem se terão um futuro digno.
Porque não têm emprego, e se o têm é vergonhosamente precário.
Porque dificilmente podem pensar em ter filhos e possibilitar aos mesmos as condições económicas adequadas para que, também eles, tenham um futuro.
Porque é deveras árduo, e demasiadas vezes impossível, usufruir de um direito básico como é o direito à habitação!
Porque começamos a ter medo de ficar doentes e com necessidade de recorrer aos serviços públicos de saúde, tão criminosa é a política de austeridade que faz com que se cortem as verbas para o bom funcionamento dos hospitais e dos centros de saúde, colocando em risco as nossas próprias vidas!
Porque as escolas perdem cada vez mais recursos, sacrificando professores e comprometendo o trajecto dos alunos que deveriam ser o futuro de Portugal!
Porque se não se tiver dinheiro, não se pode frequentar o ensino superior! Parece um regresso ao negro passado salazarista.
E porque quem trabalhou uma vida inteira, povoada de sacrifícios, vê como as suas pensões de reforma também são alvo de roubo!
Porque o próprio Poder Local Democrático, outra grande conquista de Abril, é outro dos alvos a abater, tantos têm sido os ataques perpetrados.
Parece, pois, que estamos, em demasiados sentidos, no 24 de Abril. E ao mesmo tempo que a maioria do povo e dos trabalhadores empobrece, desespera e luta pela sobrevivência nesta sociedade e neste país profundamente desiguais e injustos, uma minoria, uma elite, um punhado de gente, com nomes e com rostos, enriquece, prospera nos seus lucros acumulados, repousa feliz na sua despudorada abundância, e tece estratégias para mais enriquecer, saqueando sem vergonha os míseros salários e as humildes pensões das pessoas que constituem a maioria social!
Não lhes chega o que lucram. Não lhes basta o que já têm desde o berço. Querem mais. Querem transformar em negócio o que deveria ser um direito. Querem privatizar o que deveria ser sempre de todos. A água, a energia, os transportes. A saúde. A educação. A segurança social.
E querem acorrentar as nossas vidas ao pagamento eterno de uma dívida que não é nossa!
O capital quer mais. Tremeu com o 25 de Abril, recuou com as belas conquistas que a Revolução conseguiu.
Mas, para desgraça da maioria, quarenta e um anos depois, o capital está onde sempre esteve. E se “o dono disto tudo” cai (chame-se espírito santo ou espírito salgado) outros donos se chegam à frente, com a fiel e mansa mordomia do poder político dominante, que vai alternando de cor, mas não de natureza e de conteúdo!
Apesar de estarmos aqui reunidos de cravo ao peito, a assinalar os quarenta e um anos da nossa Revolução dos Cravos, aqueles que têm nome e que têm rosto mataram demasiadas conquistas de Abril e, na sua contínua investida revanchista e fruto da sua natureza predadora, não cessam de querer eliminar outras conquistas que ainda subsistem no nosso país e na nossa Constituição.
Por isso disse aquele jovem, há dias, num café, que os políticos são todos iguais e que o 25 de Abril, para ele, é uma data sem significado.
Porque aquele jovem, nascido em liberdade, não tendo conhecido o país obscuro e a repressão salazarista, só conhece, afinal, a dureza desta vida,
o desemprego,
a precariedade,
o medo de chegar ao fim de cada mês e não poder pagar as suas contas,
o medo de constituir família ou então de não a poder sustentar,
o medo de perder a casa, o emprego,
o medo de não ter futuro.
Mas sabem uma coisa?
Se Abril um dia aconteceu, Abril um dia poderá voltar a acontecer!
Se o povo um dia despertou, o povo um dia poderá voltar a despertar!
Porque o sonho só existe porque existe a realidade.
Porque o sonho, um dia, poderá ser a própria realidade!
E porque o 25 de Abril é a prova deste sonho!
Permitam-me que termine com um poema. Um poema de Ary dos Santos, neste caso chamado “Tríptico do Trabalho”. Mas permitam-me que apenas vos leia o soneto nele contido, apelidado de “O futuro”:
Isto vai meus amigos isto vai
um passo atrás são sempre dois em frente
e um povo verdadeiro não se trai
não quer gente mais gente que outra gente.
Isto vai meus amigos isto vai
o que é preciso é ter sempre presente
que o presente é um tempo que se vai
e o futuro é o tempo resistente.
Depois da tempestade há a bonança
que é verde como a cor que tem a esperança
quando a água de Abril sobre nós cai.
O que é preciso é termos confiança
se fizermos de Maio a nossa lança
isto vai meus amigos isto vai.
Viva o 25 de Abril!
25 de Abril sempre!