Senhor Presidente da Assembleia Municipal
Senhor Presidente da Câmara Municipal
Senhoras Vereadoras
Senhores Vereadores
Senhores Presidentes das Freguesias
Caras e caros munícipes
as minhas saudações
Pediram-me para falar sobre o 25 de abril de 1974 em nome do Bloco de Esquerda.
Deixo-vos a perspetiva de uma criança de 10 anos que não vivia em Portugal à data dos acontecimentos.
Como habitualmente, as mães juntavam-se, à noite, junto ao muro do quintal para ouvirem as rádio-novelas no pequeno radiotransistor, enquanto nós, as crianças, brincávamos.
Mas, por algum motivo, naquela noite as mães não ouviram a radio novela.
As suas caras mostravam preocupação e, como era habitual, evitavam comentários perto de nós.
Durante vários dias e noites as mães continuaram apreensivas e atentas à rádio.
Quando finalmente se confirmou que a situação política na “Metrópole” tinha mudado, que tinha havido uma revolução e que o governo tinha caído, as mães mostraram uma alegria contida, um misto de alívio e esperança.
A frase que me ficou gravada na memória, proferida pela minha mãe, foi:
“A guerra acabou… os nossos filhos já não vão combater...”
Eu tenho dois irmãos e felizmente não tiveram que combater nessa guerra, a guerra do Ultramar, Colonial, da Independência, onde os povos dos territórios ocupados pelo nosso país lutavam contra os nossos jovens, pela libertação da sua terra, pelo direito a serem donos dos seus destinos sem serem tutelados por uma potência estrangeira.
Foi uma guerra sangrenta, injusta e desnecessária, que , só do lado português, fez cerca de 9 000 mortos e mais de 100 000 doentes e feridos.
Esta guerra destruiu entre 7 e 10% da população portuguesa e 90% da juventude masculina, tendo chegado a gastar cerca de 40% do Orçamento de Estado à data, empobrecendo assim o país e a sua população.
Foi graças à coragem dos militares de Abril, cansados do estado a que tinha chegado a nação e que conseguiram evitar um banho de sangue, que a 25 de Abril de 1974 terminou um período negro da história do nosso país.
Com a revolução chegou a democracia e a liberdade.
Conquistámos o direito a decidir como queremos viver no nosso país através do voto livre.
Conquistámos direitos que até então nos eram negados.
A mim, como mulher deu-me o direito a ter voz, o direito a decidir o que fazer com o meu corpo, o direito a participar na construção do meu país e da sociedade em que acredito.
Podemos considerar-nos satisfeitos com o que alcançámos?
Ainda não!
A democracia é algo que se conquista, mas é um trabalho sempre inacabado, um caminho ainda por percorrer, um exercício permanente de vigilância e de defesa dos direitos conquistados, pois haverá sempre quem nos queira convencer que:
se nascemos pobres, devemos resignar-nos e manter-nos pobres;
que trabalhamos pouco e ganhamos muito;
Porque haverá sempre quem nos queira convencer que devemos pagar por crises financeiras que não provocámos.
Muito há ainda por fazer para que esta sociedade seja mais justa e paritária, para que ninguém tenha que viver da dependência por não ter recursos económicos, por não ter emprego, por receber uma pensão miserável.
Quem tem que viver em dependência perde a sua dignidade, restando-lhe apenas a submissão e isso é inaceitável num estado democrático!
Termino esta intervenção com um poema de uma autora portuguesa, Sophia de Mello Breyner Andresen, “As pessoas sensíveis”.
As pessoas sensíveis não são capazes/ De matar galinhas/ Porém são capazes/ De comer galinhas
O dinheiro cheira a pobre e cheira/ À roupa do seu corpo/ Aquela roupa/ Que depois da chuva secou sobre o corpo/ Porque não tinham outra
O dinheiro cheira a pobre e cheira/ A roupa/ Que depois do suor não foi lavada/ Porque não tinham outra
«Ganharás o pão com o suor do teu rosto»/ Assim nos foi imposto/ E não:/ «Com o suor dos outros ganharás o pão»
Ó vendilhões do templo/ Ó construtores/ Das grandes estátuas balofas e pesadas/ Ó cheios de devoção e de proveito
Perdoai-lhes Senhor/ Porque eles sabem o que fazem
25 de Abril sempre!
Fascismo nunca mais!