"Baix' a tola!" era o imperativo mil vezes ouvido no recreio do anexo do Liceu Pedro Nunes, em Lisboa, no início dos anos sessenta do século passado, ordenado aos caloiros pelos alunos dos anos mais avançados.
Aos putos caloiros parecia nada lhes custar baixar submissamente a "tola" a cada ordem proferida pelo matulão que lhe vinha no encalço. Do mal, o menos, sem desviar a atenção das brincadeiras do intervalo, era preferível obedecer sem mais, em troca da perda de tempo com discussões com os mais velhos, as quais acabariam invariavelmente num bem assestado carolo no cocuruto...
Como tributo que me presto a mim próprio ao fim de tantos anos, recordo-me como um puto que sempre resistiu àquelas praxes estúpidas, como era o caso do "Baix' a tola!"
Claro que remar contra a maré tem os seus custos e num determinado dia a discussão aqueceu, não tendo eu tido outro remédio se não candidatar-me a bombo da festa à saída do "anexo". É óbvio que as hostilidades tiveram origem na minha dificuldade congénita para dobrar a espinha, literalmente, a cervical, ao que se seguiram os primeiros carolos e calduços. Em dose redobrada, melhor dizendo, quadruplicada, porque eram quatro os praxantes... O meu atrevimento em responder na mesma moeda fez com que num ápice a contenda subisse de tom, a ponto de ferverem, primeiro, estaladas e, logo de seguida, murros e pontapés de parte a parte. Não duvido que os que terei encaixado foram igualmente em dose quadruplicada, mas a fúria e a revolta eram tantas que fiquei plenamente convencido de que, sendo de somenos as caneladas e pisaduras q. b. de que só em casa me terei dado conta, dei uma lição aos quatro duma assentada. A sorte deles – com rigor, mais a minha, eh, eh,…– foi, entretanto, o meu pai ter aparecido e acabado com a "festa". É que nos primeiros dias o meu pai ia-me buscar ao liceu e claro que nesse dia se deparou com a triste cena do filhote – que ainda por cima era eu – a ser desancado na razão direta das "atenções" que se atrevia a distribuir conforme podia pelos praxantes.
Mal se apercebeu da situação, o meu pai atravessou a rua de um salto para enxotar a indesejável companhia. Com a debandada dos agressores, pernas para que vos quero, ainda eu recuperava o fôlego de tão agitado sufoco, os beiços mordidos de raiva, e já o meu pai era alertado, em surdina, por um avisado aluno mais velho:
– Oh, senhor, tenha cuidado, olhe que um deles é filho do ministro!
Alto e bom som para toda a Rua da Bela Vista à Lapa ouvir, foi pronta a resposta do meu pai:
– Pois que venha cá o ministro que também leva nas lonas!
Foi um episódio que nunca mais esqueço, até porque eu já tinha alguma consciência do risco que era brincar com o fogo fascista, pelo que ouvia os meus pais segredar no recato do lar – e os meus tios, quando lá iam de visita –, com o recado para que os meninos não abrissem a boca lá fora a contar o que se falava em casa.
De facto, pelo menos a um daqueles rapazes, vinha um motorista trazer e buscar ao liceu e é muito natural que fosse filho de ministro, não sei,... se bem que, como se sabe, pelo Liceu Pedro Nunes tivessem passado alguns meninos bem, filhos de ministros e quejandos, dos quais pelo menos um ainda hoje faz jus à "boa" família de origem.
É justo ressalvar que, muito embora as praxes sejam manifestações de direita onde se cultiva a submissão em obediência a uma hierarquia de tipo troglodita, não é pelos factos aqui descritos, protagonizados por meninos bem, que se pode concluir que só esses se envolvem nas praxes. A prática é transversal a todas as classes.
Passado o liceu, nunca mais ouvi falar em praxes, exceção feita, no período da tropa, a umas imbecilidades do mesmo jaez a que reagi, humilhantes dos mancebos caloiros, promovidas pela oficialagem mais entusiasmadamente fascistoide.
Depois do liceu, à entrada para a Faculdade no final da década de sessenta, início dos anos setenta, não havia pura e simplesmente praxes. Muito embora com toda a irreverência própria de quem desperta para a vida social, os estudantes da época não se eximiam a constituir-se como massa crítica capaz de questionar o regime opressor, bem como a justeza da guerra colonial, que aguardava quem acabasse o curso ou era servida sem esperas a quem se atrasasse na conclusão das cadeiras. Foi, aliás, nesse contexto que o estudante Ribeiro Santos foi assassinado pela PIDE, em pleno anfiteatro de Económicas. As associações de estudantes, para além do efetivo apoio que davam aos estudantes através das secções de folhas para complementar os apontamentos das aulas, eram uma gota de água a engrossar o rio da democracia que estava para ser conquistada daí a meia dúzia de anos.
Se podemos falar da inconsciência associada às praxes entre putos de 10, 11, 12 ou 13 anos – prática que nada tem a ver com o bullying (que é o gozo cobarde com o mais fraco... ou mais só, porque diferente à conta de ter umas borbulhas a mais, de ser gordo ou de se ver obrigado a usar uns óculos lentes de garrafa, a que nem os professores mais indefesos escapam, e de que me penitencio por também ter estúpida e inconscientemente alinhado uma ou outra vez) –, a assunção da mesma inconsciência já não cola tão bem em jovens de 17 ou 18 anos – os dux um pouco mais velhinhos...
Melhor, até cola se atendermos a que na agenda subliminar da direita sempre esteve inscrito o objetivo de uma juventude acrítica e imbecil q. b., a mesma que nas escolas antes da entrada na universidade é incapaz de perceber que a valorização pessoal está no conhecimento e no estudo em vez da utilização intensiva do telemóvel, quer para as mensagens igualmente imbecis, quer para enviar as questões do exame e recebê-las de volta resolvidas por um explicador sem escrúpulos, qual esperteza à moda do Relvas!
É assim no Portugal dos pequeninos, que melhor certificação pimba do que a imbecilidade das praxes?
A direita, ainda que embaraçada com os excessos do Meco, não quer mexer no assunto. É natural, a direita no poder, se não se der o caso de fazer marcha atrás na História, na ânsia de conseguir retrocessos civilizacionais de décadas – como está, aliás, a acontecer –, dá-se bem com a conservação do mundo tal qual ele está. Porque sempre foi assim, é da praxe!...