Alguns políticos, sobretudo oriundos das juventudes partidárias, demonstram uma falta de cultura democrática avassaladora. Ainda que tenham importantes cargos partidários, ao fazerem algumas considerações levianas, revelam toda a sua ignorância sobre o que é a democracia e como funciona. Conseguem apenas fazer alguma boa figura porque boa parte da população também não está instruída sobre o que é o Estado e como funciona esta máquina. Como dizia Brecht: “O pior analfabeto é o analfabeto político. Ele não ouve, não fala, nem participa nos acontecimentos políticos. Ele não sabe que o custo de vida, o preço do feijão, do peixe, da farinha, da renda da casa, dos sapatos e dos remédios dependem de decisões políticas”1.
Lição primeira. O Estado é uma agremiação política constituída por todos nós, cidadãos, verdadeiros soberanos que elegem os seus representantes. Um exemplo: os Mirós são nossos, pertencem ao Estado e não ao governo. Quando alguém se pronuncia sobre o destino a dar sobre o destino dos quadros está no seu direito enquanto coproprietário desse bem. O primeiro-ministro não o entende, claro, porque na sua vida empreendedora não teve tempo para estudar estes preceitos simples e, em vez de explicar as suas razões, insulta os críticos.
Lição segunda. O político legitimamente eleito ou nomeado para as suas funções não tem “carta-branca” para pôr em prática toda e qualquer decisão. Se é verdade que o voto é o ato seminal dos mandatos políticos, ele não deixa de ser apenas o ato mínimo fundador, não podendo conter toda a participação cidadã, que é ampla e deve ser exigente para com a atuação dos seus representantes. Talvez o nosso primeiro-ministro não saiba, mas ensino-lhe gratuitamente, só há dois órgãos democráticos eleitos em Portugal e o governo não é um deles. Logo, em vez de inflar o peito em nome da legitimidade absoluta, deveria meditar na sua legitimidade relativa.
Lição terceira. A democracia não é a força da maioria, é a vontade da maioria na condição do respeito pelas minorias legítimas. O facto da maioria dos alemães pouco se importar com o destino dos judeus ou dos ciganos não transforma a violência hitleriana num gesto democrático. Porque há direitos que são universais, como o direito à vida, aos quais acresce a obrigação democrática do respeito pela diferença. Tais pressupostos não são referendáveis, sob pena da cairmos na demagogia (uma doença democrática). Explique-se isto a Hugo Soares, o líder (supremo?) da JSD.
Lição quarta. A política é a gestão conjunta do Estado, que se reparte por três órgãos de soberania independentes, o Legislativo (os deputados da Assembleia), o Executivo (o governo) e o Judicial (os tribunais). Todos os três fazem política, isto é, gerem o bem-comum que é o Estado. Quando se diz que um tribunal faz política é declarar uma banalidade, pois é isso mesmo que ele faz, de acordo com as leis a que deve obedecer. Por maioria de razão, o Tribunal Constitucional é profundamente político, na medida em que se debruça sobre um documento que é fundador do nosso regime e que é, por isso, prenhe de convicções ideológicas. Toma decisões políticas? Claro! Esperemos é que as tome somente no respeito pela Constituição e no seu espírito vivificante (lembremos que a letra mata2). Ensine-se ao governo misto que a lei está acima dos considerandos ou das opiniões dos poderes executivos, que a ela têm de se submeter, como todos os outros cidadãos. É o que se chama Estado de Direito. Um avanço histórico para os que combateram todos os arbítrios e um empecilho para os que querem criar novos mandos e espartilhos. Se o governo fosse um governo e não um bando situacionista teria vergonha das negativas proferidas pelo Constitucional, pediria desculpas humildes pela tentativa de infração à lei e emendaria o rumo. Se…
Lição quinta. Não há regimes políticos perfeitos, nem democracias idílicas, mesmo as escandinavas. Podemos e devemos melhorar muito a relação entre as entidades políticas e os cidadãos. São necessárias duas peças, a humildade dos representantes democráticos (Parlamento, governo e tribunais) e a vontade do povo soberano em se inteirar do que se passa e intervir na coisa pública. É que os países onde a democracia transpira maior confiança são aqueles em que os cidadãos são respeitados, não por mera deferência, mas porque se fazem mesmo respeitar e não toleram certas imbecilidades. Esta última lição, caro leitor, é mesmo só para si.
1 BRECHT, Bertold, O analfabeto político [poema]
2 2 Coríntios, 3:6
texto publicado no esquerda.net