Desde sempre a corrupção, do pequeno ao grande abuso, tem minado a nossa sociedade. Para quem viveu a revolução de Abril de 74 e os tempos mais próximos que se lhe seguiram, pairou a esperança de que esse mal maior, ferrete do modo de ser português, poderia combater-se a sério e, senão estirpado de todo, pelo menos reduzir-se a dimensões socialmente aceitáveis.
A alegria da liberdade e da dignidade readquiridas, a novidade que foi cada pessoa poder exprimir abertamente os seus desejos e aspirações através da acção colectiva, e com isso alcançá-los melhor, deu força à solidariedade e diminuiu o peso e as razões da corrupção.
Ao contrário do que muita gente pensa, não foi a liberdade a mais nem os excessos da malta, que levaram ao estado em que hoje o país se encontra. Foi sim o seu retrocesso, o desgaste e o descrédito da luta comum, substituida pelo individualismo crescente, pelo salve-se quem puder, que nos trouxeram de novo o reino da cunha e do amigismo, da prepotência e da partidocracia.
O perigo não é a liberdade dos pequenos mas o vale tudo dos poderosos!
Após quase uma década de um novo século, não passa um mês, por vezes semana a semana, sem que surja mais um caso de corrupção. Não os pequenos casos da mão amiga, ou interesseira, que faz subir este e aquele processo ou requerimento, do fundo para o topo da papelada; ou do posto de trabalho ocupado sem qualquer aviso público, ou, se o há, é mera formalidade encobrindo um destino já concertado para este jovem filho de um amigo do peito, ou nem isso, ou para aquela menina de linhas aerodinâmicas, ou nem por isso, pois a procura é tanta que a excepção já virou regra.
Estes, e miríades de outros, são os casos que, só por si, nem são notícia, porque são o dia a dia da sobrevivência acima do limiar da pobreza, às vezes nem assim. E porque convém que assim seja ao sistema que tanto mais reina quanto mais divide.
Mas o regabofe dos poderosos é hoje tão grande e tão contrastante com o resto da população que os seus abusos e escândalos são notícia quase diária. E não se julgue que se trata de gosto pelo mexerico ou por vender papel. De facto, a corrupção em grande escala tem vindo a crescer e a dominar cada vez mais, seja a esfera privada e estatal, seja a economia e a política. E, misturando-as ainda mais, garante continuar impune.
Quem isto afirma é, entre outros, João Cravinho, que no parlamento apresentou recentemente um conjunto de medidas que, aprovadas, seriam um travão ao crescimento da corrupção. Mas nem com a maioria absoluta do seu partido as propostas passaram, pois foi precisamente o seu partido que as chumbou! Para salvar a face, o Governo mexeu alguma coisa. Afinal, para que tudo fique na mesma, segundo observou de novo Cravinho, frustado com a ineficácia dessas medidas que, fechando uma porta, deixam 30 abertas, ao dispor sobretudo da grande corrupção de estado e dos grandes corruptos.
Aqueles, da gente de baixo, que perante os escândalos e corrupções dos senhores do dinheiro, encolhem os ombros, resignados a que sempre assim foi e sempre assim será, mas que clamam exaltados, justiceiros de julgamento único e sem perdão, contra os desmandos dos ciganos, dos imigrantes, dos drogados, do vizinho que não aceitou novo emprego porque se safa com ganchinhos, ou da vizinha que acumula uma pensão indevida (tudo coisas que muitos fariam se lhes chegasse a oportunidade), bem mais avisados andariam, no seu próprio interesse e no do futuro dos filhos, se virassem a sua fúria para denunciar e combater os desmandos dos poderosos, em que o mal de cada um deles sobre a sociedade, vale por mil, quando não por todas as prevaricações dos de baixo juntas.
Sim, não esqueçamos os abusos dos de baixo, mas não é verdade que o exemplo deve vir de cima? Se assim é, nunca haverá mudança a sério enquanto só os de baixo sentirem o peso da justiça... Por aí, o pior exemplo será, cada vez pior, o de cima.
(publicado no Região Sul)